terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Beijos, Didi


7:47

Diego interrompe o despertador do celular, vira-se na cama e afaga Ingrid, esfregando-lhe a barba no pescoço e na bochecha. Na orelha dela, sussurra, tentando conservar a atmosfera doce:

- Didi, tenho que ir. Pode dormir mais um pouco.

 8:31

Sentada na cama, Ingrid passeia os olhos pelo quarto de Diego, cativa-se por cada detalhe, menos pela inadequada action figure do Motoqueiro Fantasma sobre a cômoda. Quase tudo bonitinho, estiloso e amigável. Dormira ali só por três vezes, mas já se sentia incrivelmente à vontade, reflete, apalermada, ainda ignorando o quanto está atrasada para trabalhar.

8:53

Saindo do chuveiro, Ingrid se contorse de dores na barriga. A noite pode até ter sido inebriante, o encaixe perfeito e tudo mais, porém, goulash, cerveja de trigo e paleta mexicana jamais formariam uma boa combinação para o jantar, anota mentalmente. E o pior: devido à hora, nem sobraria tempo para uma nova ducha. Não seria isso a estragar o dia. Não, isso não, ri consigo mesma, sentada no vaso sanitário em meio a calafrios.

A situação começa a perder a graça quando Ingrid puxa a descarga e nada acontece. Os calafrios se intensificam.

- Fo-deu - deixa escapar.

9:10

Vasculha a cozinha até achar sacolas plásticas. A súbita falta d`água não é suficiente para deixá-la em pânico. Até pragueja contra o governador e a Sabesp, mas sem desanuviar-se da satisfação. Foco! Foco é tudo que precisa, evoca para si. Com uma das sacolinhas captura o maior elemento do vaso. O segundo dá mais trabalho, pois insiste em atocaiar-se na boca do cano, tal qual uma moreia a preparar o bote. Em outra circunstância estaria terrivelmente enojada, constata. Missão cumprida: elementos aprisionados na sacola. A última etapa é depositar o desagradável legado em alguma lixeira distante dali.

9:13

Mesmo apressada, Ingrid se permite escrever um bilhetinho. Para isso, larga a sacolinha de cocô sobre a pia e vai de novo revirar a casa, agora em busca de caneta e papel. Pronto. Pausa rápida. Escreve “A noite foi sensa!”. Afixa na geladeira. Não se sente satisfeita. Coloca uma emenda no bilhete: “Vc é the best! Beijos, Didi”. Cola de novo. Sai do apê e bate a porta. Já no elevador, arrepende-se da mensagem “meio bobinha”. Está feito, afinal, a porta trava ao ser batida por fora, conforma-se.

10:43

Após sofrer no trânsito, Ingrid chega à agência onde trabalha. O sorriso descontrolado, embora menos radiante, intriga sua assistente.

- Noite boa, Didi?
- Ai Bia, dá pra notar? Tô que não me aguento. Por mim nem viria hoje, ficaria só suspirando em casa.
- Uau! Foi com aquele… o do show do David Guetta?
- Ele mesmo.
- Então, agora vai?
- Se o mundo não sabotar, agora vai! – empolga-se.
- Não quero cortar seu barato, mas…
- O quê? A reunião das três? Já tô ligada. 
- Anteciparam pras duas. E o Juarez quer falar contigo antes.
- É coisa séria? – corre para o banheiro, sem esperar pela resposta.

10:52

A felicidade dá lugar à aflição. E não apenas pelas terríveis cólicas. Desesperada, pergunta-se como pode ter esquecido um saco de cocô ao lado do bilhete romântico. Briosa a remendar a situação a qualquer custo, ergue-se do vaso. Mas a fraqueza a faz desabar novamente, abatida e derrotada. Se há um lado positivo nessa história, pensa, é que pelo menos conseguira cagar sólido pela manhã. Mas agora isso nem é mais uma vantagem, conclui.

11:05

- Macarrão de massa de banana verde é 98% menos calórico que o normal, não tem glúten e controla intestino irritável.
- Bia, nao quero controlar meu intestino. É só uma diarreia! O que eu preciso é entrar naquele apartamento.
- Esqueceu o que lá?
- Uhm… melhor nem falar.
- Liga pra ele, pega a chave. Acabou o problema, ora.

11: 12

Quase desmaia ao escutar o aviso de caixa postal do celular. Tenta de novo. Agora chama. Respira aliviada.

- Diego!? Oooi… sim, lindo, também adorei. Imagina, imagina… desculpa ligar assim, no meio do dia, mas tenho um probleminha. Nada grave. Esqueci o… a minha chave… Sei, sei. NÃO! Preciso ir antes, se não se importar, claro. Tem chave reserva na portaria? Então sussa... Valeu, meu lindo! Ah, mais uma coisa: que horas você chega?... Quatro e meia? Mas tão cedo? Hehehe… claro, claro. Bom, chego antes! Beijo, beijo!

11:34

- Nossa, Didi, tá pálida! 
- Bia, vem aqui comigo – puxa a assistente para um canto da sala e susurra – Eu vou ter que dar uma fugida, surgiu uma urgência, mas chego a tempo pra reunião, eu acho...
- Bom, se você diz… mas e o Juarez? Ele tá na sua cola.
- Ai, me esqueci disso. Explico pra ele pelo whats – pega a assistente pelos ombros - Você não me viu, ok?

12:02

Pega de surpresa, acuada em sua mesa, Ingrid não sabe o que responder a seu chefe.

- E aí, Didi, Pizza Hut ou Almanara?
- Mas o que…?
- Vou pedir comida. Assim já vamos repassando a apresentação.
- É que eu não posso…
- Regime, né? Então Almanara.
- Como assim regime? Não seja grosso! – revolta-se - Inclusive devo estar ainda mais magra hoje.
- Fecho com Pizza Hut.
- Juarez, já tenho almoço marcado. Desculpa.
- Como assim? A cliente tá vindo aí.
- Não demoro.
- Consegue voltar em quarenta minutos?
- Bom, não vou mentir pra você…
- Didi, é concorrência!
- Segura essa pra mim.
- Como segurei na semana passada?
- Semana passada fiquei doente, Juarez, não mistura as coisas.
- Doente em Maresias?
- Como assim? Como assim doente em Maresias? O que você…?
- Seu namorado, ou sei lá o que, postou fotos de vocês, com data e tudo.
- Tem algum engano nisso aí.
- Você já foi mais esperta.

13:21

Chove muito. Ingrid circula pela Marginal com pouca visibilidade da pista. Consulta o relógio. Vai dar tempo, tranquiliza-se.

14:12

Finalmente trafega pelo viaduto que a tira da Marginal. No entanto a rota para o Morumbi permanece travada. A aflição volta a causar-lhe efeito desagradável nas entranhas. Não há tempo para achar sítio apropriado. A Picanharia Pentagrama é o único estabelecimento com vaga por perto. Sente mau presságio quanto ao banheiro do local.

14:45

- Tudo bem aí, moça?
- Não abre a porta! – grita Ingrid, de dentro do banheiro imundo.
- Não vou abrir, só queria saber se estava viva.
- Pois estou.
- Tem gente querendo usar, e você nem cliente é.
- Jesus! – irrita-se - Então me vende uma água.
- Mais alguma coisa?
- Tipo o que, meu senhor? Uma picanha?

15:10

Agora corre um escuro e caudaloso rio pela rua onde tinha estacionado. Amedronta-se diante da correnteza insana. Só toma coragem após consultar o relógio.

Com água quase até os joelhos, sentindo muito nojo, recordando de histórias terríveis sobre leptospirose e moléstias afins, dobra a esquina, mas… onde está o carro?, pergunta-se, chocada.

- Ingrid, de São Paulo… Pode me socorrer, por obséquio? Meu carro foi roubado, ou levado pela correnteza, sei lá... Não, não tenho o número da apólice… Sem sistema? Tá de brincadeira, né?! Tô aqui na chuva, suja, precisando de auxílio e… o quê? Ah, sente? Sente mesmo? Escuta, querido, enfia seus sentimentos e seu sistema no cu!

15:51

Colocara sob risco seu emprego, enfrentara trânsito e enchente, tivera o carro roubado e, mesmo assim, muito provavelmente, perderia também o novo amor. Nesse estado pessimista, cheia de dó de si mesma, presencia dois pequenos milagres: a aparição de um taxista gentil e, o mais espantoso, oferecendo uma corrida, mesmo em meio àquele dilúvio. Comovida, Ingrid entra no carro.

- São só 4 quadras, moço. Vou tentar não molhar muito o seu carro.
- Preocupa não, moça.

Ingrid chora baixinho.

16:07

- Oi, sou amiga do Diego. Ele está?
- Seu nome?
- Ingrid.

Portão é aberto.

- Boa tarde, o Diego já chegou?
- Ainda não.
- Ai, ufa! Então, não sei se ele avisou, é que deixei uma chave aí e precisava pegar.
- Ele ligou avisando. Um momento – vai até um cômodo no fundo da portaria e volta com a chave do apartamento 41.

Entre tantos fracassos, pelo menos um sucesso teria. Sucesso no amor, azar no resto, para variar um pouco, anima-se.

16:12

A herança deixada fedia, e muito, empesteando toda a cozinha. Antes de ir embora com a maldita sacolinha, causadora de tanta confusão, Ingrid dá um pulinho no banheiro para verificar o semblante. Vaidosa como sempre, tenta corrigir o rímel borrado, mas apavora-se ao ouvir chaves na porta. Fica paralisada. Cerra a porta do banheiro. Escuta risos. É a voz de Diego... e de uma mulher. Com certeza entraram pela garagem e não têm conhecimento da presença dela. Cachorro, balbucia para si, mordendo os lábios de decepção.

Os dois entram no quarto e intensificam as gargalhadas. Ligam o som: Use Somebody, do Kings of Leon, mesma música que ouvira com ele na noite anterior.

Arrasada, se esgueira até a porta da rua.

16:23

Cruza o saguão do prédio humilhada, sem se separar da constrangedora sacolinha. No portão da rua, confere se o porteiro ainda a observa. Como não o vê, deposita a sacola dentro da caixa de correio de número 41.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Meu tio comeu o Chico Buarque


A plateia majoritariamente feminina do Anfiteatro Radamés Pires suspira, lamentando pelo fim da sessão de perguntas ao mestre e escritor Amadeu Mello, acerca de seu estudo sobre Chico Buarque, em evento que celebra os 70 anos do artista.
   
- Minhas caras e meus caros, devemos estar alertas contra debates sustentados por inteligências aeradas, pois isso só serve para acirrar o Suflair Ideológico. Lembrem-se disso. Passo a palavra ao professor Abyacir Cordeiro.

Em meio a palmas entusiasmadas, o professor Abyacir, à vontade como mestre de cerimônias, sobe ao palco para dar prosseguimento ao evento.

- Quem quiser saber mais sobre o trabalho de pesquisa Aspectos Interdisciplinares de Chico Buarque e a Ressignificação da Epistemologia Pós-Estruturalista no Discurso Feminista Luso-africano, pode acessar o portal da nossa biblioteca. Certo, meu excelentíssimo Amadeu?
- Isso mesmo, querido.
- Agora todos estão convidados para a recepção na sala Pintassilgo. Serão servidas iguarias bem brasileiras em homenagem a esse artista brasileiríssimo que é o Chico. Tem caldo de mandioquinha com taioba, rocambole de marrom glacê e, para arrematar, uma cachacinha de Berimboca dos Ferros, na zona da mata pernambucana. Aproveitem!

É possível escutar a plateia inteira a salivar, exceto por um homem de jaqueta jeans encardida que, de pé na primeira fila, agita os braços, clamando pela atenção do mestre de cerimônias:

- Meu filho, já encerramos as perguntas – lamenta o professor Abyacir.
- Eu sei, mas só queria contar um causo pro nosso mestre.
- Sinto muito.
- É rápido.
- Vamos ouvi-lo – interfere o palestrante, magnânimo, fazendo as pessoas se sentarem novamente - Qual o seu nome, rapaz?
- É Elias, Elias Taboada – olha ao redor, como a conferir se a menção de seu sobrenome provocara algum efeito. Nada de especial além de dois bocejos, um espirro e muita impaciência.
- Pode falar, Elias.
- Bom, não sei se o senhor chegou a ouvir falar do meu tio, o Tenente-Coronel Taboada...

Amadeu Mello nega com a cabeça, cheio de afetação. Elias prossegue:

- Meu tio foi muito respeitado dentro nas forças armadas, lá pelos anos 60. Comandou várias operações no Rio. Não ouviram falar mesmo? Vivia em Copacabana, jogava vôlei de praia…
- Filho, desculpe interromper, mas não vejo a relação disso com o trabalho de pesquisa apresentado. Poderia ser mais objetivo? Nosso estômago tá feito turbina de avião – gargalha Amadeu, gerando palmas entusiasmadas da plateia, igualmente faminta.
- A relação dele é com o Chico.
- Claro, claro… uma relação pouco amistosa, imagino.
- Ao contrário, ele e o Chico eram muito próximos – olha enigmático para os presentes, que mais uma vez se mostram inexpressivos.
- Elias, você tem alguma pergunta a fazer?
- Não, mas se o senhor gentilmente me concedeu a palavra, vai deixar que eu chegue ao fim, certo?

Disfarçando a contrariedade, Amadeu pigarreia e sinaliza para Elias continuar.

- Obrigado, Mestre. Nunca falei sobre o assunto em público porque seria um desgosto enorme pra minha falecida tia. Porém, hoje pertenço a este grupo de estudo, então tenho que trazer à tona que meu tio comeu o Chico. Mais de uma vez, inclusive.

Risadas nervosas na plateia.

- Eu ouvi direito? – indaga Amadeu para o professor Abyacir, congelado em sua fleuma.
- Eu tenho cartas e documentos – tenta emendar Elias. No entanto é abafado pelo ruído das pessoas, divididas entre irritadas, divertidas e  indignadas.

Ligeiramente ressentido, talvez por deixar de ser o centro das atenções, Amadeu retoma a palavra:

- Querido, você não está mais na quarta série, tem até fios grisalhos. Não faça isso com a gente. Pra que ridicularizar o debate tão elevado que tivemos aqui hoje?
- O caso deles não foi nada comparado à relação com a Marieta, admito. Durou pouco tempo, mas foi intenso e explica muita coisa – contemporiza Elias.

Um senhor de olhos divertidos por trás dos óculos levanta-se na segunda fila, interrompendo a conversa:

- Com licença, sou historiador, posso ver a sua pasta de documentos?
- Tá tudo aqui: cartas, fotos... olha, este fantasiado de Bethânia na casa do meu tio é o Chico, pode conferir – aponta uma das fotos e entrega a pasta ao historiador.

Uma estudante de saião indiano e mandala tatuada na parte de trás do ombro também resolve se meter:

- O Chico é uma rara voz masculina a insurgir contra o patriarcalismo vigente. Ao colocar a mulher na primeira pessoa, ele revelou o flagelo feminino com nuances sutis e poéticas. Querer desmoralizá-lo é querer desmoralizar todas nós. – desabafa a moça, coberta por um reluzente verniz de dignidade.
- “Desmoralizar” por quê? Tio Taboada era muito bonito, inclusive várias mulheres passaram pela mão dele. E famosas! Tipo a Maysa, a Emilinha... dizem que até a Leila Diniz.
- “Passaram pela mão”? Peço respeito às mulheres presentes. Misoginia aqui, não! – intromete-se uma senhora, com pinta de professora de ensino fundamental disciplinadora.
- Senhora, eu digo  mulheres, mas coloco na conta homens também, tipo o Chico.
- Chico foi homem o bastante para desafiar o regime! Recolha-se à sua insignificância e retire-se! – ordena a moça da mandala tatuada, obscurecendo o ar digno.
-Não sem antes experimentar o caldo de mandioquinha! – retruca Elias.

O professor Abyacir acha conveniente intervir:

- Por favor, não transformem nosso anfiteatro em um ringue.
- Professor, me admira o senhor e o mestre Amadeu darem espaço pra esse idiota vir aqui tumultuar, exaltando um milico de merda – sai do sério de vez a senhora disciplinadora.
- Vou ignorar a ofensa porque vocês foram educadas a subestimar militares. Porém eles não eram os ignorantes que todo mundo pensa. Tinham contato com artistas e entendiam sim os versos do Chico – explica Elias, domando parte das moças exaltadas com sua serenidade.

Uma terceira mulher, de longos dreads e bata africana, usa de sarcasmo para hostilizar Elias:

- Acha que vai impressionar alguém aqui com piadinha de vestiário masculino?  Volta pra tua tumba, reaça!

Amadeu e Abyacir imploram às pessoas que dirijam-se à sala Pintassilgo, mas o bate-boca continua, para deleite da turma ao fundo do anfiteatro, mais a fim de ver o circo pegar fogo.

- Vocês são muito engraçadas. Só defendem minorias até descobrir que o ídolo de vocês foi violado? E ainda me chamam de reaça...?! – desdenha o sobrinho do Tenente-Coronel Taboada.

Um jovem rapaz se levanta das fileiras do meio para também se manifestar:

- Como homossexual, repudio muito a postura preconceituosa da plateia. Que mal há no Chico ser gay?
- Até que enfim alguém sensato – alivia-se Elias -  Homofobia é um bagulho que me revolta.

Libertando-se da gelatina da omissão, Amadeu busca apaziguar os ânimos, já que a tentativa de ignorar Elias falhara:

- Por favor, meu rapaz, não se trata de preconceito... Você tem o direito de falar o que bem entende, só abomino provocação barata. Conta sua história até o fim para vermos se faz algum sentido.
- Mestre, tô tentando dizer que há muita passionalidade na história do Chico com o meu tio. – vira-se com ar professoral para as moças com quem discutira - Para o bem e para o mal, minhas caras.
- Prossiga.
- Tio Taboada amava as músicas do Chico e se esforçou muito para dobrar os outros fardados, que entendiam perfeitamente as letras de protesto.
- Como assim?
- Ele evitou o exílio do Chico por muito tempo. Mas claro que não foi só por amor à música. Teve cu no meio também, aí já viu, né?!
- Você está sendo chulo e ignorante – retruca Amadeu, tendo em seguida que conter nova insurgência feminina - Shhh... gente, silêncio, por favor. Ele vai concluir.
- Não sou ignorante. O Chico só se exilou quando perdeu o apoio do tio Taboada, mas ele mesmo provocou isso.
- Não entendi.
- Chico dedicou várias musicas ao meu tio, mas uma em especial desceu quadrada.
- Qual? – pergunta Amadeu, com a curiosidade atiçada.
- Retrato em Branco e Preto. Foi feita depois que a Marieta descobriu o caso dos dois. Ali tem várias referências à vida íntima com meu tio.
- Essa música é belíssima.
- Meu tio não achou. Se sentiu exposto, aí o Chico teve que tirar o time de campo, acalmar a Marieta e tal. Mas a história não acaba aqui.

Amadeu faz uma mesura cínica para Elias permancer à ribalta.

- Quando voltou, Chico fez “Jorge Maravilha” como indireta pro Médice, e atingiu meu tio em cheio.
- Hahaha! Sinto desapontá-lo, mas essa música foi feita pra filha do Geisel.
- Engano seu. Quando o Chico ficava putinho com a indiferença do tio Taboada, dizia que meu tio não passava de uma filhinha do Médice. Daí, por rancor, fez aquele versinho enciumado: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. 
- Eu não sei se me espanto mais com a sua infantilidade ou com a sua audácia, meu caro Elias.

Risadas despudoradas começam a surgir no fundo do anfiteatro. Entretanto, Elias insiste na seriedade do assunto:

- Atacou meu tio por recalque e não segurou a bronca. O romance teve que acabar, apesar das várias cartas escritas pelo Chico, pedindo perdão.

Enquanto Amadeu revira os olhos, o historiador de olhos divertidos, até então alheio à balbúrdia do anfiteatro, reaparece um tanto assustado, um tanto admirado, e opina:

- Com licença, mestre, podemos questionar as consequências práticas da relação do tio do rapaz com o Chico, mas é inegável que ela existiu, e parece ter sido bem profunda.
- Isso é um disparate – grita a moça da mandala tatuada.
- É a letra do Chico mesmo – afirma o historiador, sacando uma das cartas de dentro da pasta - Nessa aqui, por exemplo, ele dizia ao senhor Taboada que amava o exílio, porque podia ficar lá bebendo e fumando o dia todo enquanto aqui no Brasil todo mundo o via como herói.
- Puro despeito – destila mágoa Elias - Meu tio fez o que pode por esse ingrato.
- O Chico é mais homem que vocês todos, simpatizantes da ditadura, corja fascista! – ataca a senhora raivosa.
- Por favor, não vamos transformar isso aqui em uma Comissão da Verdade sobre a sexualidade do Chico – suplica Amadeu.
- O senhor quer ver as fotos? – Elias estende a pasta para Amadeu.
- Não, obrigado. Só quero saber por que diabos eu nunca ouvi falar do seu tio. Se ainda fosse um milico famoso.
- Costumo dizer que ele era uma mistura de Luis I, rei burguês da França, com o Oskar Schindler, que livrou a cara de uns judeus, só que com piroca nervosa, né?! Porque assim fica mais fácil fazer o bem.
- Ainda que ele tenha comido o Chico, não seria suficiente pra ter tanta influência assim.
- Ele tinha um trunfo.
- Qual?
- Segundo meu pai contou, tio Taboada também comeu o Médice.

A ira das estudantes transforma-se em leves apupos de cinismo, enquanto o professor Amadeu abaixa a cabeça, em mais um de seus gestos afetados, e aciona seu fiel escudeiro:

- Professor Abyacir, querido.
- Pois não, mestre.
- Traz a cachacinha de Berimboca dos Ferros.




quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tour


- Eu fico realmente espantado com você.
- Por quê? É tão anormal querer conhecer um puteiro?
- É anormal sim, Maíra! Ainda mais comigo, que jamais fui frequentador.
- Não frequenta agora. Mas antes de mim…
- Você acha que vai ver o que aí dentro? Não é Moulin Rouge não, é vida real: gente solitária, bunda triste, cheiro de lubrificante vagabundo…
- Deixa eu me decepcionar, Dirceu.
- Vou ter que bancar o eunuco, as putas, coitadas, vão se sentir bichos de zoológico, e os clientes constrangidos com a sua presença… enfim, ninguém se beneficia nessa história.
- A sua precisão me leva a crer que esse ambiente ainda é bem familiar pra você.

Dirceu esquiva-se da insinuação:

-  Uma cerveja e damos no pé, ok?  - aponta uma placa em neon - Tá bom aquele?
-  Não, olha aquela luz verde da fachada, que horror!
-  Qual o problema?
-  Entristece a figura dos seguranças e não estimula em nada a visita.

Após recusar um outro estabelecimento, por causa do terno puído do segurança, Maíra opta pelo Coco Bongo Night Club, pois considera a a temática “caribenha kitsch” divertida.

- Um sex on the beach, moço.
- Maíra, sabe quanto custa drink aqui dentro?
- Permita-se! – desdenha a namorada, lançando um olhar curioso para a pista, ainda pouco movimentada às onze da noite – Vamos dançar?
- Olha ali, não é o…?
- Quem?
- Nada.
- Você viu algum conhecido? Me mostra.
- Não, achei que…
- Dirceu, Dirceu… tá protegendo quem? Fala!
- Achei ter visto o Saulo… mas deixa ele em paz.
- O Saulo? Peraí, que Saulo? O da Gi?
- É… ou melhor, não sei.
- Você é péssimo! – ataca Maíra, cheia de desprezo pela postura cúmplice do namorado - Cadê ele?

Os olhos da mulher percorrem o lugar, fixando-se em uma silhueta masculina parcialmente encoberta por uma coluna.

- Já vi! Vamo lá!
- Aonde? Péra…

Saulo conversava com uma mulher de biquini verde abacate ao ser surpreendido por Maíra com um tapinha nas costas.

- Saulinho, é você mesmo!?

O homem sorri amarelo, indeciso entre reagir ou não com bom humor. Dirceu tenta socorrê-lo:

- Grande Saulo… sempre bem acompanhado – sorri para o amigo, mas desfaz a empolgação ao perceber a feiúra da moça do biquini abacate.
- Moça, a gente queria falar com nosso amigo um instante. Obrigada, querida!

Saulo ainda os encara como se fossem fantasmas.

- O que vieram fazer aqui? – consegue perguntar.
- Não o mesmo que você, né Saulinho?! – debocha Maíra.
- Maíra! – irrita-se Dirceu – Se tem alguém aqui fora do habitat natural, esse alguém é você.
- Aqui dentro a ética é outra – completa Saulo, mais confiante – Então não vem com lição pro meu lado.
- Que bonito! Os dois declarando o puteiro como zona de exceção. Deixa a Gi saber que existe um lugar onde o namorado dela abandona a monogamia.
- Monogamia? – Saulo gargalha – Maíra, você mal passou dos trinta, devia ser menos tradicional. Vou ao banheiro pra não ter que ouvir isso. Vocês me permitem? 

O casal já não parece tão animado. Apenas observa a casa encher, enquanto Lady Gaga berra nas caixas de som.

- Nenhuma sem silicone! Vocês gostam mesmo disso, Dirceu?
- Vamos embora?
- O Saulo foi um grosso! Eu não sou nada careta. Sei separar as coisas.
- Ele deve estar estressado, querendo relaxar, e a gente atrapalhando. Vamos?
- Não! Se o Saulo precisa se aliviar, vou dar uma força.
- Como assim?
- Posso ajudar a escolher uma profissional boa e confiável. Sou mulher, tenho feeling.
- A troco de quê?
- Ué, mostrar que sou mente aberta.
- Ele não precisa. Já tá desenvolvendo com outra ali no balcão.
- Aquela? Jesus! Vai levar doença pra Gi!

Novamente Saulo tem a conversa interrompida pelo casal. Dessa vez ele reage com mais calma:

- Maíra, não fica preocupada com a Gi, só vim aqui beber.
- Sei. E tá conversando com as meninas pra quê?
- Sou educado. Respondo quando me abordam.
- Saulo, não precisa bancar o sonso, eu te ajudo a achar uma.
- Ah, claro! Vai fazer a cafetina e depois me entregar.
- Opa! - intromete-se Dirceu.
- Shiu, Dirceu! Se você deixar, não conto pra Gi - promete Maíra - Aperta a minha mão.
- Aperto porra nenhuma, já disse que vim aqui só beber e conversar, aliás...

Saulo tenta retomar a conversa com a puta, mas ela faz uma careta e os abandona, toda rebolativa. Dirceu e Saulo observam a bela bunda se distanciar. Maíra ignora a falta de decoro e estica os olhos até a pista de dança.

- Aquela ali, Saulo! Vamos chegar nela.
- Como assim “vamos”? Maíra, você tomou ácido? – reage Saulo – Em primeiro lugar ela se veste como uma evangélica…
- Ela tá elegante de vestido, ué! Só porque não usa fio dental? Vocês deviam curtir mais um mistério! 
- Em segundo lugar – retoma Saulo – Eu não preciso da sua ajuda.

O barman, que ouve a conversa enquanto enxuga alguns copos, resolve se meter, mostrando indiscreta intimidade com Saulo:

- Ô Borracha, vai na dica da sua amiga que é sucesso. A Nicole é um dos melhores boquetes da casa é capaz.
- Borracha? – intriga-se Dirceu.
- Até você vai se meter na minha vida, Jurandir? – revolta-se Saulo.

 Maíra não contém a curiosidade:

- Por que borracha?
- É o apelido carinhoso que as meninas deram pra ele. Porque na hora agá – mostra o polegar pra baixo, causando espanto em Maíra e indignação em Saulo.
- Tá louco, Jura? Que piada de mau gosto!
- Gente, mas é culpa do pó. Essas coisas acontecem mesmo. Eu tenho um primo…
- Ô Jura, vê se cala essa boca! – ordena Saulo, voltando-se em seguida para os amigos – Deixa eu chegar na rainha do boquete pra fugir de vocês.

Dando o assunto como encerrado, Dirceu tenta puxar Maíra até a porta de saída, porém:

- Calma, agora tá quase no fim. Deixa eu ver como termina.
- Aí já é voyeurismo. Vai querer ir pro quarto com eles também?
- Porra, mas eles já estão conversando faz tempo. Costuma demorar assim a negociação?
- Bom, depende…
- Você se entrega mesmo, hein!?
- Olha lá, acho que não vai rolar.

Maíra corre até os dois:

- Oi, prazer, meu nome é Maíra.
- Meu Deus! O que foi agora? 
- Vocês estão demorando demais pra decidir. Quero ir embora. Olha lá a cara do Dirceu, coitado.

Saulo suspira, aponta pra puta e, mau-humorado, esclarece:

- Tô negociando o completinho. Mas ela tá cobrando caro.
- Completinho?
- É, Maíra, o cu! Se você convencê-la a fazer mais barato, fecho com ela. Que tal?
- Eu? Tá maluco, Saulinho? Reprovo completamente.

De saco cheio, a puta encerra o impasse:

- Vem, Borracha, paga o combinado, mas para de enrolar – puxa Saulo pela braguilha até os fundos da boate.

À distância, Saulo vira-se para Maíra e sorri. Ela responde com um joinha pouco convincente. Já na rua, comenta:

- Vou ligar pra Gi.
- Vai nada!
- Vou sim. Nunca gostei desse Saulo, ainda menos agora ao saber que ele come cu de puta.
- Mas foi você que armou!
- Me poupa, né!?
- Eu fico realmente espantado com você!

- Para de repetir isso. Shiu, tá chamando…


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Musas


- Prova estas mini alcachofras.
- Não, obrigada. Miguel, tem certeza que não quer que eu vá embora?
- Por que eu iria querer?
- Sei lá! Sua ex vindo aí, não pode rolar um climão?
- Bia, ela quer falar sobre o Bruninho.
- Não podia usar o celular? Isso me parece mais uma desculpa pra te ver.
- Não começa.

A ex-esposa de Miguel entra no restaurante toda esbaforida, um tanto suada, joga a bolsa sobre a mesa e suspira.

- Ai Miguel, sabe o quanto eu já andei hoje? Você não imagina! – senta-se, tirando uma das sapatilhas – Olha o estado do meu pé.
- Márcia, esta é a...
- Ah, oi amiga do Miguel. Prazer, Márcia. Que negócio é este aqui? – aponta para o prato.
- Mini alcachofras.
- Credo. Bom, não pretendo estragar o almoço de vocês com problema doméstico. Então, se preferir, nos encontramos depois.
- Veio até aqui, agora fala. O que houve com o Bruninho?
- Fez endoscopia hoje.
- Meu Deus! Mas ninguém me avisa de nada?!
- Não precisa bancar o pai zeloso pra sua amiga - alfineta Márcia - Já foi, o estômago dele tá bom, porém...
- Porém o quê? Conta do início.
- Tem a ver com a sua coleção.
- Que coleção? – agita-se na cadeira Miguel.
- A de Playboys. Tem alguma outra que eu não saiba?
- Ahhhh... hehe... Explica isso direito – constrange-se Miguel diante do olhar curioso de Bia – É a coleção de revistas que herdei do meu pai. Fico com pena de jogar fora.
- Não seja por isso. Eu mesma posso jogar. Você nem sentiria falta, deve ter tudo na internet hoje em dia – minimiza Márcia.
- Péra, péra... fala o que isso tem a ver com o Bruninho.
- Pois bem, outro dia achei a bunda da Christiane Torloni amassada no banheiro, como se tivesse sido mastigada e cuspida.
- Que papo surreal é esse?
- Eu logo fui pra cima do Tonico, que já é mais rapazinho, e podia estar fuçando as revistas do pai.
- Não são minhas... - irrita-se Miguel - Tá, vai, continua.
- Enfim, o Tonico jurou não ter rasgado revista nenhuma e acusou o irmão.

Bia não contém a curiosidade:

- Mas quantos anos têm esses meninos, afinal?
- O Tonico tem dez e o Bruninho seis.
- Gente, eu ainda não entendi – impacienta-se Miguel – que diabo a bunda da Chris fazia no banheiro?
- O Bruninho anda comendo suas revistas.
- Como assim?
- Ele recorta as partes mais interessantes, tipo bunda, peito, coxa, etc., e come. Simples assim. E, pelo visto, a da Christiane não caiu muito bem, porque sentiu dor no estômago, vomitou...
- Mas também, né gente?! É quase uma idosa – desvirtua Bia.
- Idosa?! Essa mulher era um furacão - exalta-se - E a revista é de 83, se não me engano.
- Tá bom, desculpa. Você que é velho, Miguel.
- E você é desinformada. Obviamente não viu Um Beijo no Asfalto, ou Rio Babilônia, quando ela era uma ninfetinha linda, contracenando com o...
- Pessoas, vamos voltar ao Bruninho – interrompe Márcia.

Aborrecido, Miguel desvia a atenção para a xícara de café.  

- Miguel, eu queria que você conversasse com ele. Tentasse entender.
- Conversar o quê? É coisa boba de criança, Márcia. Vai passar.
- Vai tirar o corpo fora, claro.
- Tranca o armário, uai.
- Você e suas soluções simples.Vou embora. Mas antes, um aviso: seu filho prefere as revistas dos anos 80.
- Sério?
- As consideradas mais valiosas por você e pelo seu finado pai. Chato, né?!
- Miguel, eu não acredito que você cultiva amor por essas revistas – estranha Bia.
- É bom você tomar uma providência, ou vai esperar ele se intoxicar de verdade? Seu filho já comeu a Maitê Proença, a Monique Evans, a Luiza Brunet, a Lídia Brondi, a Vera Fischer...
- Ah não, a Vera também? 
- Gente, mas o que será que ele viu nessa coroa que nem depila a xana?
- Falou bobagem de novo, Bia - irrita-se Miguel - O primeiro ensaio da Vera foi o momento mais sublime e delicado da história da revista, segundo dizem.
- Dizem, né?! Sei.
- Miguel, não entra em provocação.
- Você duas não entendem! Era a fase áurea da revista. Depois veio photoshop e ficou tudo fake. Até deixaria o Bruninho comer essas porcarias anos 90, tipo Carla Perez, Feiticeira... mas a Lídia, a Monique, a Claudia Ohana!? Papai teria um ataque.
- Para de chilique! Ele ainda não chegou na Claudia Ohana – consola Márcia - Talvez tenha se assustado com aquela... enfim, com aquele excesso.

Surge o garçom:

- A sobremesa do dia é torta floresta negra.

Miguel o dispensa com um gesto impaciente.

- O problema do Bruninho certamente não é mau gosto. Na playboy da Hortênsia, por exemplo, ele nem tocou.

Bia não se conforma:

- Como não é mau gosto? As musas dele são todas vovozinhas.
- Que musas, mulher? O menino mal saiu da mamadeira! Miguel, acho melhor a gente conversar sobre isso em particular.

Miguel ignora a rixa entre as duas:

- O que você acha que é, Márcia?
- Sei lá! Tenho medo de ser algum problema neurológico, talvez sejam só vermes.
- Márcia, quem tem verme não come revista.
- Ele costumava comer sabonete. A fase oral continua bem viva.

Bia ameaça um comentário, mas se retrai.

- Fala, Bia. Qual a sua opinião?
- Pode ser só uma tendência à putaria, como a sua.
- Ih, Miguel. Ela já te conhece bem.

***


Miguel verifica número por número. Os recortes de Bruninho: perfeitos. Boa coordenação motora, pelo menos, pensa. Mais de vinte edições danificadas. Nem sempre por causa da garota da capa. Às vezes uma coelhinha ou playmate despertavam maior voracidade. Xuxa, por exemplo, a despeito da fama com os baixinhos, fora ignorada. No entanto, a insossa Lucinha Lins... o que se passa com esse guri?, se pergunta. A conferência chega a 1987. As mãos de Miguel tremem de apreensão ao tocar a edição 149: Luciana Vendramini. Folheia com avidez, contém-se, temendo rasgar. Intacta. Respira aliviado. A boca secara por um instante. Mas estranhamente enche d’água agora. Não resiste e destaca o pôster. Olha bem no fundo dos olhos juvenis de Luciana e a esquarteja, ou melhor, divide o pôster em cabeça, peitos, quadril e pernas. Come as três últimas partes. Não suporta a culpa de encarar Luciana e vai embora, sorrateiro. Se via sem condições emocionais de conversar com Bruninho.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O sinistro Carlos Menininha


- Afe… não te falei, Renan? Isso é talco!
- Vamos ter que levar só a birita mesmo.
- Hoje eu vou lá. Quero o "du bom" que ele disse que tinha ou meu dinheiro de volta. Já é a segunda vez que o filho da puta me passa a perna.
- Surtou, Luca? A gente atrasado pra festa e você querendo levar navalhada na cara.
- Foda-se! Não vou passar recibo de otário pro Menininha. Mas chego de leve, na conversa. 
- Menininha?
- Sim. Carlos Menininha, um tipinho inacreditável da rua Paim. Vai temer um cara com um apelido desses?! Apesar de ter fama de sinistro.
- Por que o apelido ridículo então?
- Vira esse copo aí.
- Peraí, não vou entrar nessa roubada com você.
- Vai vacilar? Cheirar você queria, ou não?

Presos no trânsito da rua Augusta, Luca e Renan tentam encontrar uma vaga.

- Pele branquinha, cabelo chanel, sardas...  é assim que você descreve a figura sinistra que te vende pó?
- E acho que ele usa rímel, mas aí pode ser meu cérebro avacalhando.
- Então é um traveco!
- Não é. A roupa, o jeito, é quase tudo de homem. Ele só é meio... uhm... angelical. Tipo uma criança doentia, sabe?
- Um traficante angelical da Paim. É isso?
- Bom, você vai ver. Olha ali a vaga!

Estacionam e vão andando até a Paim, uma rua sem saída tomada pelo lixo, destoante da vizinhança civilizada.

- Rua porca, hein?! Parece que passou um bloco de carnaval por aqui.
- Olha ele lá - aponta discretamente - Na mesa do canto.

Carlos Menininha era fiel à descrição: físico delgado, baixa estatura, quase sumia em meio aos demais. Estava concentrado, escrevendo em um bloco de papel, observado de perto por um casal bronzeado em trajes hippies. Ele termina o que parece ser a caricatura do casal, entrega aos dois, que agradecem, riem um pouco e vão embora satisfeitos. O traficante retribui com a cabeça, ignorando a lenta aproximação de Renan e Luca. 

- Para de rir, Renan.
- Desculpa...  mas eu não consigo. Ele é engraçado demais. Olha esse cabelo lisinho de Cleópatra!
- Shhh... só eu falo agora!

Menininha ergue os olhos para os visitantes. Com cândida solicitude, pergunta:

- Querem que eu faça uma caricatura de vocês?

Renan nota que além das sardas, Menininha possui longos cílios. Luca não se atém a tais detalhes, vai direto ao ponto:

- Não finge que não me conhece - crispa os lábios de raiva - Eu voltei e você sabe o porquê.
- Vai com calma, Luca – apazigua Renan.
- Não sei. Por quê? – pergunta o traficante, sem se alterar, apenas intrigado.

A aparente docilidade de Menininha inflama Luca:

- E aquele papo de "da pura" e o caralho? É a mesma merda que já tinha me empurrado antes.
- Ué, me disseram que era boa.

Luca respira fundo, contendo o ímpeto violento. Menininha tenta se justificar, um pouco vacilante:

- Olha, eu nem uso... o que você quer que eu faça?
- Me dá o do bom! – levanta a voz Luca.
- Psss... fala baixo. Não tenho outro – aflige-se Menininha.
- Porra, se não vai me dar outro, devolve a merda da grana, vai!
- Escuta, o dinheiro eu já usei, ou melhor, vou usar.
- Como assim?
- Com a minha namorada.
- Haha... Ouviu Renan? Dá pra levar a sério?

Renan sorri amarelo, louco para ver-se livre daquele disparate de situação, porém Luca parece prestes a perder de vez o respeito pela singela figura do submundo:

- Namorada é o caralho! Essa não convence nem a tua mãe. Sei qual é o seu negócio – faz alusão a um pênis com as mãos.

Pálido e com os olhos marejados, Menininha suplica:

- Passa outro dia, por favor.

Luca empurra o traficante, agitando-lhe os fios delicados do cabelo e derrubando uma cadeira da Skol. A agitação desperta o povo ao redor. Um homem atravessa a rua em direção ao conflito e se faz notar:

- Ô playboy!

Renan percebe a aproximação de curiosos e se apavora.

- Porra, Luca! Olha aí a merda.

Mas o alvo era mesmo Luca, logo cercado por quatro homens, e desafiado pelo estranho que atravessara a rua:

- Vai tirar com o Menininha na quebrada dele, palhaço? Treta cum nóis  – dito isso, desfere uma cabeçada que desnorteia o rapaz.

A solidariedade com o traficante faz insurgir a patuleia formada por bebuns e traficantes. Para infelicidade de Luca, todos bem maiores que Menininha. Enquanto o pau come, Renan observa o pivô da discórdia caminhar até o balcão do bar, pedir uma fanta uva e voltar à mesa de canto para desenhar, alheio ao tumulto. Aliás, a modalidade agora era chute no corpo do rapaz jogado na poça. Qualquer um podia entregar-se à atividade. Os golpes foram suficientes para Renan desistir da festa e chamar uma ambulância. A noite dos dois, que mal chegara a começar, termina no Pronto Socorro.

- Devia ter aceitado o desenho, tomado uma fanta-uva, chamado ele de padrinho, sei lá.
- Renan, eu tô levando pontos, reparou? Dá pra calar a boca?
- Ih, rapaz! Agora fodeu! – alerta Renan, correndo para aumentar o som da TV do quarto.

Um programa exibe matéria sobre a agressão na rua Paim. Enquanto se lê na legenda: CARLOS MENININHA, O BANDIDO ANGELICAL QUE ATRAI PROTEÇÃO, o apresentador Datena vocifera:

- Eu peço licença para mostrar a vocês imagens da mais pura barbárie. Não dá pra chamar de outra coisa: é barbárie mesmo! Isso aconteceu agora há pouco, na Bela Vista. O indivíduo conhecido como Carlos Menininha tá ali atrás, fingindo que não é com ele, reparem. Esse bandido entra e sai da cadeia, tá sempre metido em confusão e por trás da carinha de anjo está um monstro, um parasita da pior espécie. É essa fragilidade, esse ar de coitadinho, que atrai a proteção dessa corja aí, chutando um pobre coitado, um infeliz rolando na poça feito uma ratazana gorda. Coitada da mãe que vê isso e... – Renan muda o canal.

- O cara é sinistro mesmo, hein, Luca?!
- Renan, você não tem mais nada pra fazer? O rolé acabou. Pode ir pra casa.

Renan aproveita a saída do enfermeiro para colocar diante do rosto costurado do amigo um papel amassado que acabara de tirar do bolso.

- Olha o que ele me deu quando a gente saía.
- Que porra é essa?
- Não reconhece?

Mesmo com apenas um olho bom, Luca se reconhece no desenho, bem realista por sinal, de um homem caído na poça, chutado impiedosamente por quatro homens.

- Não é possível!
- E ele fez isso muito rápido, pois seu massacre durou quase nada.
- E você não fez nada? Nem xingou o filho da puta fanfarrão?
- Tive vontade de dar um pirulito pra ele.
- Eu vou pegar esse viado de porrada! E o Datena vai ter que mostrar na TV!
- Calma, ele nem cobrou pelo desenho.
- Ah, que gracinha da parte dele.
- Acho que ele simpatizou comigo, Luca. Disse pra eu voltar outro dia.
- Pra quê?
- Prometeu colorir o desenho. Diz aí Luca, você que saca de submundo como ninguém, isso pode ser algum código? Ok, sem stress, cuidado com esses pontos aí.


*Ilustração de Ricardo Coimbra