sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Crítica social foda


- Olha isso: “todo dia o governo esporra na nossa cara enquanto permanecemos impassíveis”.
- Que merda é essa, Mari?
- O Cauê escreveu no face. Patético!
- Tentou fazer uma crítica social foda e ficou cômico.
- Ele se apropriou do abuso do doido do ônibus, o que gozou no pescoço da mina.
- E ficou ridículo demais pra gerar revolta.
- Nem é isso, Flavio. É que essa luta é feminista e ele não pode descontextualizar, pagando de vítima. É oportunismo.
- Até porque, em certos casos, pode ser um ato de amor. Estaríamos estigmatizando quem curte tomar gozada na cara. Não de um estranho no ônibus, claro, mas…
- Já tá falando merda.
- Não tô endossando, Mari, mas o Cauê deveria escrever assim: todo dia o Governo esporra na nossa cara sem consentimento. Só que aí perde o frescor, né?!
- Frescor?
- Sim, fica rebuscado.
- Você já mudou o sentido da discussão completamente. 
- Eu não tenho nada pra falar sobre feminismo.
- Muito menos a me ensinar.
- Sim, tô só refletindo sobre frases revoltadas com temática sexual.
- Ai, como você é pedante.
- Era mais fácil ele ter dito: todo dia o governo coloca na nossa bunda…
- Mas não estaria pagando de antenado com a causa alheia.
- Se você fala: meu chefe não quis pagar minha indenização mas eu botei na bunda dele, você mandou ver.
- Justo, mas se você diz: meu chefe não quis pagar minha indenização mas eu esporrei na cara dele, fica só gay, porque o povo ainda leva de forma literal.
- Sim, vão pensar que você teve um surto psicótico.
- É babaquice heteronormativa, Flávio. Botar na bunda é forte, tipo submeter, já esporrar na cara tá no campo da perversão, é safadeza.
- Se o Cauê passasse um tempo nos Estados Unidos, iria voltar falando: todo dia o Governo nos obriga a beijar seu rabo.
- Não consigo falar nada sério com você, Flávio.
- Sem perceber que lá isso até pode ser uma ofensa, mas aqui talvez soe carinhoso.
- Carinhoso?
- É.
- Pensando bem, prefiro essa metáfora à da ejaculada.
- Cauê tem razão, o Governo anda muito pervertido com o cidadão.
- É, daqui a pouco tá mandando um fist fucking, uma golden shower. E a gente lá, de boca aberta.
- Comenta aí no post do Cauê: todo dia o Governo nos faz um fio terra, apalpa nossa próstata, dá tapão na bunda, goza na cara, vira pro canto, não dá boa noite, nem chama no zap no dia seguinte.
- Hahaha… todo dia o Governo nos sevicia com roupa de vinil e chicote. Melhor assim?
- Besuntando a gente em queijo catupiry e entumescendo nossos mamilos com a língua de um anão.
- Eita! Continua, governão da porra, vai.
- Tá sem limites esse Governo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Lacração


- Aqui é a Agnes em Capri, na Itália, usando calça capri.
- Bacana.
- Olha esta, João, que hilária: ela teve que levar pão francês até a França pra poder fazer a foto, porque lá não tem… haha.
- Hmm.
- Aqui usando bermuda nas Bermudas, comendo bolognesa em Bologna, frankfurters em Frankfurt…
- O nome é salsicha.
- A autêntica. Não é Sadia, não.
- Só pela foto eu não afirmaria.
- Ah, adivinha o conceito desta – aponta para mais uma foto na tela do tablet.
- De camisa da Seleção, lendo um livro e segurando uma panela – coça a cabeça - É na Paulista?
- Em Viena.
- Que extravagante.
- É ela “estudando” a Escola Austríaca na Áustria. Mises, viu a capa? Liberalismo econômico, sacou?
- Então não devia estar de verde e amarelo, porque paneleiro não é chegado em livro.
- Ai, detesto explicar piada.
- Desculpa, Bia, mas esse é o projeto mais ridículo que eu já vi. Ela largou o emprego pra isso?
- Sim, e fez um puta sucesso. Já tem gente imitando.
- O povo compra qualquer jequice.
- Você não entende quem larga tudo pelo que ama porque é acomodado.
- Eu? Me mato naquela redação todo dia. Já essa Agnes nunca trabalhou de verdade.
- Como não? Ter ideias não é trabalho?
- Só se não forem cretinas. Olhaí que mau gosto – aponta para mais uma foto - comendo camarões em Camarões, um país pobre.
- Você vive num mundo antigo
- Pois prefiro.
- Sabe o que você é? Um fóssil cristalizado no âmbar mofado do jornalismo.
- Pisa menos.
- É pro seu bem, miga. Posso continuar?
- Chega desse constrangimento, vai.
- A lacração vem agora. Olha.
- Nossa, quem é esse aí? Não é o Mauricio.
- Pois é, ela deu um french kiss em um estranho em Paris.
- Que sacanagem com o Mau.
- Ela descobriu que tava levando chifre pelo face, aí radicalizou o projeto. Mas mandou as fotos só pro Mau. Aí ele vazou.
 - Caralho. E esta, é ela?
- O cu é dela sim. E o cara é um grego. Beijo grego de um grego na Grécia.
- Tá, não precisa explicar tudo.
- E pra completar: as tetas com essa piroca espanhola no meio.
- Não sabia que ela tinha peito pra uma vingança dessas.
- Teve, literalmente.
- Mostra mais.
- Procura na internet. Chega de expor minha amiga.
- Por que o Mau vazou?
- Vingança da vingança. Ele colocou chifre, ela mandou foto de putaria, ele foi e vazou. Um escroto.
- Já era pros dois, né.
- Nada, a guerra continua.
- Teve mais baixaria?
- Ela pegou um nude antigo dele e pediu pro irmão fazer uma montagem. Agora tem uma foto do Mau com mini piroquinha circulando. Quer ver?
- Pegou pesado.
- O Mau processou o irmão dela. Parece que vai ganhar.
- Vai ter morte nisso aí.
- Vai nada. Tão ganhando dinheiro. A Ag posou pra Trip e agora vai ao programa da Fátima Bernardes.
- E o Mau?
- O Mau foi defendido em post do Eduardo Bolsonaro e no programa do Gentili. Agora tá sendo seguido por mais de dois mil moleques de 15 anos. Sabe o que é isso?
- Misoginia?
- Digital influencer, querido.
- Por causa de uma piroquinha?
- E o bebê dos dois, que nem nasceu, já tem conta no insta com 10 mil seguidores.
- Bebê? Do Mau?
- Claro, de quem mais? A Ag tá com três meses, por isso deu uma pausa na lacração.
- Bia, é muito doente isso tudo.
- Doente é você que vive por fora. Nem parece jornalista.
- Minha editoria é Bem-estar.
- Jamais irá lacrar.
- Eu faço tudo nessa casa. Cozinho, limpo, reciclo, construí os móveis… não te basta?
- Sim, mas cadê seu ibope? Ninguém te lê, ninguém te segue…
- Não preciso ser escroto pra ser notado.
- Se é tão perfeitinho, deveria ao menos se vender melhor.
- Minha virtude não tá a venda.
- João, você podia ser um Rodrigo Hilbert. O meu Rodrigo Hilbert! O da vida real.
- Dá licença, vou tirar o lixo.
- Olhaí, preciso mostrar a joia que você é pro mundo.
- Foto não, Bia, tô de cueca.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Reality show


- Você não queria uma relação aberta? Vai lá, pega quem quiser.
- Como se assim fosse fácil.
- Juca, tô me expondo publicamente à traição, sou a mártir da minha produtora, mas deixa eu garantir a grana do reality.
- E se eu não conseguir transar?
- Tudo bem, a gente recebe a grana do mesmo jeito.
- Como vou pegar alguém vestido com roupas medievais?
- Do período elisabetano, na real.
- Que seja!
- A condição é essa.
- Digamos que eu saia pra almoçar sozinho. Tenho que usar?
- Se vai ter mulher no recinto, sim. Quantos romances não começaram em um esbarrão de bandejas de self service?
- Nem você tá levando a sério.
- Precisamos de conteúdo! Vamos estar sendo filmados. Você pega quem quiser, desde que esteja vestido de Conde de Frou Frou, e eu estarei de roupas normais porém com chifres. Que tal?
- Não sei quem tá pior.
- Foda-se as roupas. Mostra a sua lábia.
- Até peruca eu vou ter que usar.
- Sim, e pó de arroz. Aproveita que o verão nem tá tão forte.
- Se eu arrumar um encontro pelo Tinder, por exemplo, como vou explicar?
- Já te passei a pauta: você é herdeiro do conde Frou Frou e recebeu a fortuna sob a condição de vestir as roupas tradicionais do conde, passadas de herdeiro para herdeiro desde 1600.
- Claro, muito verossímil.
- O Conde de Frou Frou original era um homem excêntrico.
- Então além de tudo vou ter que me fazer de rico?
- É o que tá na sinopse do programa.
- E quando eu for a uma balada ou ao show do Criolo? Vão me impedir de entrar assim.
- Deixa de ser besta, São Paulo é a terra do cosplay. Só não esquece que em eventos você terá que levar seu séquito.
- Séquito?
- Sim, dois trombeteiros para anunciar a sua entrada e um menestrel.
- Hahahaha! Não fode.
- Ué, teoricamente você vive em outra época. Tem que agir como tal.
- Escuta, se vou ser conde, logo vou ser monarquista, correto?
- Bom, sim, mas não precisa entrar no território politico, se não quiser.
- A república vindo abaixo e eu não vou me posicionar?
- Excêntricos vivem em um mundo paralelo, não se engajam em nada.
- Sei, vou ser da monarquia festiva, né?!
- Boa.
- Não viaja. Quem vai querer dar pra um monarquista? A direita nem transa, muito menos a “nobreza”, imagino eu.
- Olha o preconceito.
- Se eu vou passar ridículo e ficar na seca, quero uma contrapartida sua.
- Contrapartida? Já vou pagar de corna pra nação!
- É voluntário, um experimento, portanto não vai estar sendo enganada.
- Como se a audiência da MTV tivesse esse distanciamento crítico.
- Podemos desistir. Foda-se o dinheiro.
- Vai, fala o que você quer.
- Apimentar a relação.
- Uhm?
- Cuzinho por dois meses.
- Haha… meu cu nem aguenta, querido.
- Ok, cuzinho e espanhola alternados.
- Que machistinha sórdido!
- Tô tentando comprar seu empoderamento com o dinheiro do reality.
- Se eu topasse, se vestiria de nobre na hora de…?
- Pode ser.
- Hmm… Conde de Frou Frou, o nobre empalador?
- Já tô indo buscar o traje.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curry


- Já refletiu sobre a galera que morreu pra você poder usar essa cuequinha grená?
- Como assim?
- Antes dos europeus chegarem ao oriente, as roupas eram todas marrons, tristes, um horror. Não tinha corante, não tinha brilho.
- Quem te contou isso?
- Também enfrentaram tormentas para que o boyzinho pudesse usar um perfuminho – dá uma fungada no cabelo do namorado - Gosta de perfuminho, não gosta?
- Deixa de ser ridícula.
- Perfuminho atrai femeazinha feito eu. Mas de que adianta, né?!
- Já entendi aonde quer chegar.
- Agora vamos falar de temperos.
- Não, não vamos.
- Imagina a merda que era o gosto da comida antes da Rota das Índias. Nem sal direito tinha. Imagina curry.
- Sabia.
- Eu não sei quantos barcos afundaram para a gente ter curry na nossa mesa, mas posso pesquisar na internet. Peraí.
- Bia, chega! Eu não consigo e pronto. Sente esse cheiro.
- Você é um fresco! Queria o quê? O restaurante indiano é meu vizinho. Vai ter cheiro de curry pra caralho sim! Ou se acostuma ou não trepamos mais.
- Desculpa, curry me brocha.
- Eu preciso de uma paciência de Gandhi com você.
- Gandhi não era paciente, era pacifista.
- Então vamos pra sua casa.
- Meus pais estão lá, esqueceu?
- E aquele motel, o Plexus?
- Acho motel nojento.
- Você tá querendo levar uma porrada ou um chifre?
- Quer gastar dinheiro a toa?
- Interessante, Cadu. Nojo de curry, nojo de motel e nojo de buceta. Que bela época pra estar viva.
- Não tenho nojo de buceta.
- E não faz oral por quê?
- A gente tava falando de curry.
- Mas eu quero falar de buceta. Primeiro dizia que menstruação te afastava, mesmo quando mal tinha descido, eu entendi, apesar de contrariada, aí depois parou de vez com o oral.
- Eu peguei trauma de menstruação porque um dia…
- Já sei, a menina não te avisou e você foi lá e caiu de boca. É psicológico, querido.
- Chegou a comida – levanta-se Cadu ao ouvir o interfone.
- Vai lá, foge mesmo.

Minutos depois:

- Que massa boa.
- Gostou do molho que eu escolhi?
- Amo molho branco. Que restaurante é esse?
- Não viu o folder?
- Não veio.
- Se chama O Sabor da Saroba, cozinha experimental.
- Sucesso. Mas experimental por quê?
- Porque usa ingredientes novos, super nutritivos.
- Uai, isso é creme de leite, não?
- Sim, também tem gengibre e esperma, que harmonizam bem.
- Vai se foder.
- Qual o problema? Faz bem pra saúde.
- Filha da puta! – revolta-se Cadu, largando a quentinha e trancando-se no banheiro.
- Amor, é brincadeira – bate na porta -  Você é caipira mesmo em achar que existe delivery de sêmen. Se tivesse, eu já tinha pedido. Amor, tá vomitando?



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Gratiluz


Vinicius, acompanhado pelo pai e o advogado, aguarda na porta do gabinete do juiz. Ao ver entrar um senhor de bata psicodélica e maquiagem, faz piada:

- Que é a mocreia?
- É o juiz Epaminondas Teixeira – esclarece o advogado.
- Eita! Não vou ser julgado por traveco não – revolta-se o réu.
- Meu filho, ele é um juiz mais brando, que aplica pena alternativa.

Convidado a entrar, o réu endireita a coluna e faz uma saudação para a câmera de segurança com o braço esticado:

- Heil Hitler!
- Menine, abaixa o bracinho e senta aqui  – repreende o juiz travestido sentado à cabeceira da mesa.
- Cadê a roupa preta? Quero um juiz homem, branco e hetero!
- Olha, vou ignorar seu descontrole porque tenho manicure daqui uma hora e não quero perder tempo.
- Meritissimo juiz… - inicia a audiência o advogado.
- Juiza – interrompe o magistrado.
- Como?
- Juiza Epaminondas Teixeira.
- Juiza? – indigna-se o réu -  Não é porque a sua piroca é murcha que ela deixa de existir.
- Murcha, mas livre... e vai foder você - devolve a juíza.
- Vini, cala essa boca! – desespera-se o pai.
- Senhor advogado, consta que o seu cliente fez apologia de ideias nazi-fascistas em área pública, incitando ao racismo e à homofobia com injúrias verbais, como afirmam testemunhas, procede?
- Sim.
- No entando, ainda é réu primário.
- Sim, meritissimo… ou melhor, meritissima. O réu assume as acusações.
- Pela violação do artigo vinte da lei sete mil setecentos e dezesseis, condeno o réu a aprender a técnica de criação de terrários e vender as peças na feira de artesanato do Bixiga durante um ano, revertendo a renda para ONGs LGBT.
- Oi? – surpreende-se o réu.
- Sem multas, meritissima? 
- O pai dele paga o curso e tá tudo certo.
- Eu não vou fazer merda de terrário nenhum, sua bichona! Nem sei que porra é essa! Me dá uma punição de macho, ou cesta básica, sei lá!
- Pelo desacato, prorrogo a sentença por mais seis meses de exercício diário da nobre arte da produção de compotas, auxiliando os idosos do Lar Ricardo Coimbra.
- Compotas?
- Conservas, meu filho – esclarece o pai.
- Esse viado quer me fazer passar vergonha! – revolta-se – Quero condenação brutal!
- Não se satisfez? Então também condeno a sete meses de vendas diárias de alfajor vegano na Praça Roosevelt, com cem por cento dos ganhos doados ao Movimento Negro. 
- Mas Meritissima… como se faz alfajor vegano? – questiona o advogado.
- Alfarroba, capim santo… não me diz respeito. Estipulo que a pena comece a ser cumprida imediatamente.
- No seu cu é onde vou enfiar o alfajor, entendeu? No cu!

Guardas conduzem o réu para fora do recinto, enquanto o pai tenta consolá-lo com uma promessa:

- Vini, vou tentar conseguir ao menos uma semana de solitária pra você.
- A todos os presentes: gratiluz – encerra a audiência a juíza.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Dreads


- Foda-se a minha etnia! Eu sigo o Rei dos Reis e seu pedido é inadmissível.
- Então vem, Rei dos Reis, Leão Conquistador da Tribo de Judah, ruge pra mim.
- Que isso, mulher!? Eu sou um humilde servo. Só quem merece o título de Leão é Hailê Selassiê.
- Se tu é servo, me sirva ao menos uma vez, seu vagabundo!
- Sou servo porém livre! Além do mais, isso é uma puta heresia. Anti-higiênica, inclusive.
- Porra, mas que rastafari chato você é! Bob curtia uma sacanagem, não curtia? Olha a caralhada de filho que ele deixou.
- Deixou, mas duvido que penetrou o dread na vagina de alguém.
- Não era bem na vagina que eu queria, amor.
- Você sabe o trabalho que dá pra cultivar e manter isso aqui?
- Ai, que vaidoso.
- Não podemos fazer outra coisa?
- Vamos inaugurar um novo fetiche!
- Você tá bêbada.
- Dreadfucking?
- Desculpa, mas não é só um visual descolado.
- Ah, claro! Um loirinho de Moema que cultua um Deus Etíope. Toma vergonha nessa cara.
- Toma você! Quem vai ficar com o dread exalando cu por aí serei eu. É indigno!
- Devia te excitar.
- Não tenho essa perversão.
- Nem se te compensar depois pela dádiva?
- Parece um favor bem abjeto.
- Se você fosse um negão de verdade, talvez eu não estivesse quase implorando por esse “favor”.
- Tá insinuando que tenho o pau pequeno porque sou branco?
- Insinuando que você não gosta.
- Ok, então vira! Depois não reclama se te contaminar. 
- Sabia!
- O quê?
- Pode ser mórmon, muçulmano, satanista, o que for!
- Como assim?
- Bastou duvidar da masculinidade que você já caga sobre o Levítico e limpa a bunda com o Velho Testamento.
- Ainda podemos desistir.
- Vem cá, predador! Mas com jeitinho porque eu nunca fiz isso.




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Tinder


Andrício é levado pela moça ruiva até uma mesa cheia de desconhecidos. Percebendo que não ficaria a sós com ela, sente ameaçada a possibilidade de tirar a cueca naquela noite. Ainda assim, procura agir naturalmente:

- Legal, e estão comemorando alguma coisa?
- O teste daquela minha amiga ali - aponta a moça na outra ponta da mesa - que deu negativo. 
- Não tava pronta pra cegonha?
- Era teste de HIV.
- Ah.
- O ex é meio promíscuo, sabe?!- susurra – E o dele deu positivo. Maior bafo. Senta aí que eu te conto.
- Então… acho melhor eu partir. Trabalho amanhã – blefa Andrício, mantendo uma insistente semiereção.
- Como assim? Acabou de chegar.
- Achei que seria só nós dois, tipo um date.
- Ué, mas eu falei isso? – franze a testa, tentando se lembrar.
- Deu a entender pelo Tinder.
- Ah, o Tinder.
- Entendi errado?
- Relaxa, meus amigos são ótimos. 
- Mas vão ficar me julgando. Tipo: quem é o loser que se abalou até aqui atrás de alguém que nem conhece e mesmo depois de descobrir que a moça tava em outro rolé, se submeteu a ser coadjuvante? É como passar o aniversário na festa de outra pessoa, entende? 
- Hahahaha! Não tá falando sério, né?!
- Não seria melhor a gente sair daqui e...
- Puxa uma cadeira aí, vai - ordena, com doce impaciência, ignorando a anêmica tentativa de fuga de Andrício.

Após certa dificuldade em achar cadeira no bar lotado, enfim senta-se ao lado da bela ruiva que motivara-lhe a sair de casa naquela noite fria de terça, mesmo exaurido pelo trabalho, sob a autoimposta obrigação de fugir da rotina, também conhecida como “transar”.

- Você é o primeiro perfumista que eu conheço - ela puxa papo.
- Perfumista? 
- É, não faz perfume? Tô louca?
- Não, sou turismólogo.
- Vixe! E a promessa de criar uma fragrância pra mim? – questiona, simpática.
- Só poderia indicar destinos turísticos mesmo – responde, arrependendo-se do tom humilde, pois jamais envergonhara-se de sua profissão antes.
- Difícil com essa crise. Mas deixa seu cartão – ironiza, desconcertando-o ainda mais.
- Tinha dito que achava minha profissão original, lembra? 
- Desculpa, gato, muitas janelas abertas ao mesmo tempo, me confundo.
- Parecia querer me ver – sente a autoconfiança e a semiereção arrefecerem.
- Peraí, foi você que me mandou foto do pinto?
- Nunca fiz isso – aborrece-se.
- Pena, desse eu me lembro.
- Te mandam mesmo o…
- Ih… – contorce o rosto, deixando a resposta no ar.
- Bom, prefiro mostrar pessoalmente.
- Hahaha... calma, cara.

Se continuasse demonstrando tanta impaciência, poderia afugentá-la, pensa. Apesar da prudência indicar que o sentimento ideal é a expectativa controlada, não consegue evitar outra crise de orgulho ferido:

- Você parece não ter ideia de quem eu sou. 
- Péra, qual o seu nome?
- Andrício. 
- Haha... não fode. 
- Não fode você. 
- Nome incomum. Era pra eu me lembrar.
- Então por que chegou em mim no balcão?
- Você me olhou tão empolgado. Achei que tivéssemos combinado algo, sei lá.
- E combinamos! Insistiu pra eu vir aqui, inclusive.
- Gosto daqui.
- Marcou mais algum date pra hoje? – pergunta, atravessando de vez a fronteira entre a impaciência e a animosidade, sem jamais ter sido agradável de verdade.
- Nem sei, Aparício. Falo com tanta gente.
- Andrício.
- Meu, você é meio exigente. Primeiro pede exclusividade, agora quer que eu lembre de coisas que disse chapada. Too much pro meu pobre cérebro.
- Desculpa, Silvia - ele põe as mãos sobre o peito, admitindo culpa - Vamos começar de novo essa conversa?

Ela abafa uma risada.

- Que foi?
- Quem é Silvia?
- Ué… não disse que era o seu…?
- Lá vem você dizer que eu falei isso e aquilo de novo.
- Você não é a Silvia? – saca o celular do bolso e o consulta.
- Sua Silvia é ruiva também? 
- É… - responde, aparentando terrível frustração – Merda, não vi a mensagem. Foi embora há vinte minutos.
- Essa mulher tá te enganando. Tenho certeza que sou a única ruiva aqui desde que cheguei.
- Vocês deviam colocar fotos nítidas nessa porra de aplicativo de paquera!
- “Aplicativo de paquera”? Falando assim fica difícil se solidarizar com você, amigo – debocha.
- É, sou devagar com novas tecnologias - faz o tipo coitado.
- Relaxa porque o negócio ainda pode ficar bom pro seu lado – dá-lhe um tapinha no joelho.
- Como?
- Em primeiro lugar – estende a mão – prazer, Ingrid.
- Prazer. 
- Tem alguém aqui no bar que adorou você.
- Mas eu nem socializei, fiquei só aqui sentado.
- Pra você ver o seu poder de sedução. Posso chamar...?
- Não sei, tinha outros planos.

Ingrid se levanta e grita para alguém no balcão.

- Clinton, chega aí! 

O sorridente barbudo de turbante aproxima-se cheio de ginga, mas detém-se ao perceber a careta de Andrício.

- Bom, chegamos ao famoso “limite” – bate na mesa Andrício.
- Meu, não precisa pegar o Clinton. Ele te curtiu, podem ser amigos.
- Ele é mais sensato que você, tanto que ficou lá na dele.
- Clinton é sensível, meu bem. Captou sua aura negativa.
- Por acaso você chegou em mim por causa dele? 
- Sim e não. Tem dois lados de ver a coisa.
- Quero saber do lado bom. 
- Pode ser um copo meio cheio... ou meio vazio - mantém-se enigmática.
- Bom, eu prefiro meu cu totalmente vazio, ok? 
- Se acha assim, devia procurar outra coisa, tipo aquela mina ali que não tira os olhos de você.
- Quem...? – a visão da pessoa parece causar vertigem em Andrício.
- Se você visse sua cara...
- Tem banheiro aqui? 

Tenta escapulir sem sucesso, pois a mulher misteriosa já estava ao seu lado. 

- Tô surpresa de te ver aqui.
- Oooi – simula uma simpatia tosca – Como você tá?
- Bem. E a Ju, cadê?
- Viajou.
- Bacana – responde seca, espichando os olhos para Ingrid.
- Esta é a Ingrid, uma amiga.
- Oi! A gente se conheceu pelo Tinder – intromete-se Ingrid – Quer sentar?
- Bom...  – fulmina Andrício com o olhar - Não vou me meter nos seus assuntos. Manda um beijo pra Ju.

Impotente, Andrício observa a moça ir embora, concluindo estar irreversivelmente encrencado. 

- Cê quer me foder, né? 
- Eu não. Você que quer me foder. 
- Você mentiu!
- Por que não me disse que tinha rolo com alguém?
- Não tenho, quer dizer, não sei mais, porque aquela é a melhor amiga dela.
- E não ia me contar?
- Deveria? Vim aqui encontrar outra pessoa, esqueceu?
- Mas queria me comer.
- Não, queria a Silvia.
- E o que ela tem de tão diferente? Vocês nem se conhecem.
- Olha, só me arrisquei porque ela tem algo sim.
- Tipo?
- Bom... melhor eu ir. Já me fodi o suficiente.
- Ah não, agora fala.
- Ela não é totalmente mulher.
- É trans?
- É, mais ou menos isso.
- Que máximo! 
- Mulher eu já tenho.
- Peraí! Você me confundiu com a... - arregala os olhos - Acha que eu tenho cara de trans? 
- Não sei, é que hoje em dia...
- Meu Deus!
- Quanto mais feminina melhor, né?!
- Mano, olha o Clinton ali a fim. Tá perdendo tempo por quê?
- Tá doida? Não sou gay, só curto... ou melhor, tenho curiosidade com...
- Pau?
- Trans – olha ao redor, constrangido com a admissão – E seu amigo é muito peludo.
- Bom, então ninguém aqui pode te ajudar.
- Tudo bem. Agora só consigo pensar na merda que vai dar com a Ju.
- Só se rolasse um threesome, que que cê acha? Eu, você e o Clinton.
- Tá de onda, né?
- Uma mão lava a outra. Eu curto com dois caras, você tá atrás de aventura flex e o Clinton é da orgia  – bate palmas, excitada - E aí, partiu?
- Esse é o copo meio cheio de que você tava falando?
- Vai ou não? Sem enrolar.
- Tá.
- Clinton – grita de novo – Pega a catuaba e vem!