quarta-feira, 24 de maio de 2017

Reality show


- Você não queria uma relação aberta? Vai lá, pega quem quiser.
- Como se assim fosse fácil.
- Juca, tô me expondo publicamente à traição, sou a mártir da minha produtora, mas deixa eu garantir a grana do reality.
- E se eu não conseguir transar?
- Tudo bem, a gente recebe a grana do mesmo jeito.
- Como vou pegar alguém vestido com roupas medievais?
- Do período elisabetano, na real.
- Que seja!
- A condição é essa.
- Digamos que eu saia pra almoçar sozinho. Tenho que usar?
- Se vai ter mulher no recinto, sim. Quantos romances não começaram em um esbarrão de bandejas de self service?
- Nem você tá levando a sério.
- Precisamos de conteúdo! Vamos estar sendo filmados. Você pega quem quiser, desde que esteja vestido de Conde de Frou Frou, e eu estarei de roupas normais porém com chifres. Que tal?
- Não sei quem tá pior.
- Foda-se as roupas. Mostra a sua lábia.
- Até peruca eu vou ter que usar.
- Sim, e pó de arroz. Aproveita que o verão nem tá tão forte.
- Se eu arrumar um encontro pelo Tinder, por exemplo, como vou explicar?
- Já te passei a pauta: você é herdeiro do conde Frou Frou e recebeu a fortuna sob a condição de vestir as roupas tradicionais do conde, passadas de herdeiro para herdeiro desde 1600.
- Claro, muito verossímil.
- O Conde de Frou Frou original era um homem excêntrico.
- Então além de tudo vou ter que me fazer de rico?
- É o que tá na sinopse do programa.
- E quando eu for a uma balada ou ao show do Criolo? Vão me impedir de entrar assim.
- Deixa de ser besta, São Paulo é a terra do cosplay. Só não esquece que em eventos você terá que levar seu séquito.
- Séquito?
- Sim, dois trombeteiros para anunciar a sua entrada e um menestrel.
- Hahahaha! Não fode.
- Ué, teoricamente você vive em outra época. Tem que agir como tal.
- Escuta, se vou ser conde, logo vou ser monarquista, correto?
- Bom, sim, mas não precisa entrar no território politico, se não quiser.
- A república vindo abaixo e eu não vou me posicionar?
- Excêntricos vivem em um mundo paralelo, não se engajam em nada.
- Sei, vou ser da monarquia festiva, né?!
- Boa.
- Não viaja. Quem vai querer dar pra um monarquista? A direita nem transa, muito menos a “nobreza”, imagino eu.
- Olha o preconceito.
- Se eu vou passar ridículo e ficar na seca, quero uma contrapartida sua.
- Contrapartida? Já vou pagar de corna pra nação!
- É voluntário, um experimento, portanto não vai estar sendo enganada.
- Como se a audiência da MTV tivesse esse distanciamento crítico.
- Podemos desistir. Foda-se o dinheiro.
- Vai, fala o que você quer.
- Apimentar a relação.
- Uhm?
- Cuzinho por dois meses.
- Haha… meu cu nem aguenta, querido.
- Ok, cuzinho e espanhola alternados.
- Que machistinha sórdido!
- Tô tentando comprar seu empoderamento com o dinheiro do reality.
- Se eu topasse, se vestiria de nobre na hora de…?
- Pode ser.
- Hmm… Conde de Frou Frou, o nobre empalador?
- Já tô indo buscar o traje.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curry


- Já refletiu sobre a galera que morreu pra você poder usar essa cuequinha grená?
- Como assim?
- Antes dos europeus chegarem ao oriente, as roupas eram todas marrons, tristes, um horror. Não tinha corante, não tinha brilho.
- Quem te contou isso?
- Também enfrentaram tormentas para que o boyzinho pudesse usar um perfuminho – dá uma fungada no cabelo do namorado - Gosta de perfuminho, não gosta?
- Deixa de ser ridícula.
- Perfuminho atrai femeazinha feito eu. Mas de que adianta, né?!
- Já entendi aonde quer chegar.
- Agora vamos falar de temperos.
- Não, não vamos.
- Imagina a merda que era o gosto da comida antes da Rota das Índias. Nem sal direito tinha. Imagina curry.
- Sabia.
- Eu não sei quantos barcos afundaram para a gente ter curry na nossa mesa, mas posso pesquisar na internet. Peraí.
- Bia, chega! Eu não consigo e pronto. Sente esse cheiro.
- Você é um fresco! Queria o quê? O restaurante indiano é meu vizinho. Vai ter cheiro de curry pra caralho sim! Ou se acostuma ou não trepamos mais.
- Desculpa, curry me brocha.
- Eu preciso de uma paciência de Gandhi com você.
- Gandhi não era paciente, era pacifista.
- Então vamos pra sua casa.
- Meus pais estão lá, esqueceu?
- E aquele motel, o Plexus?
- Acho motel nojento.
- Você tá querendo levar uma porrada ou um chifre?
- Quer gastar dinheiro a toa?
- Interessante, Cadu. Nojo de curry, nojo de motel e nojo de buceta. Que bela época pra estar viva.
- Não tenho nojo de buceta.
- E não faz oral por quê?
- A gente tava falando de curry.
- Mas eu quero falar de buceta. Primeiro dizia que menstruação te afastava, mesmo quando mal tinha descido, eu entendi, apesar de contrariada, aí depois parou de vez com o oral.
- Eu peguei trauma de menstruação porque um dia…
- Já sei, a menina não te avisou e você foi lá e caiu de boca. É psicológico, querido.
- Chegou a comida – levanta-se Cadu ao ouvir o interfone.
- Vai lá, foge mesmo.

Minutos depois:

- Que massa boa.
- Gostou do molho que eu escolhi?
- Amo molho branco. Que restaurante é esse?
- Não viu o folder?
- Não veio.
- Se chama O Sabor da Saroba, cozinha experimental.
- Sucesso. Mas experimental por quê?
- Porque usa ingredientes novos, super nutritivos.
- Uai, isso é creme de leite, não?
- Sim, também tem gengibre e esperma, que harmonizam bem.
- Vai se foder.
- Qual o problema? Faz bem pra saúde.
- Filha da puta! – revolta-se Cadu, largando a quentinha e trancando-se no banheiro.
- Amor, é brincadeira – bate na porta -  Você é caipira mesmo em achar que existe delivery de sêmen. Se tivesse, eu já tinha pedido. Amor, tá vomitando?



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Gratiluz


Vinicius, acompanhado pelo pai e o advogado, aguarda na porta do gabinete do juiz. Ao ver entrar um senhor de bata psicodélica e maquiagem, faz piada:

- Que é a mocreia?
- É o juiz Epaminondas Teixeira – esclarece o advogado.
- Eita! Não vou ser julgado por traveco não – revolta-se o réu.
- Meu filho, ele é um juiz mais brando, que aplica pena alternativa.

Convidado a entrar, o réu endireita a coluna e faz uma saudação para a câmera de segurança com o braço esticado:

- Heil Hitler!
- Menine, abaixa o bracinho e senta aqui  – repreende o juiz travestido sentado à cabeceira da mesa.
- Cadê a roupa preta? Quero um juiz homem, branco e hetero!
- Olha, vou ignorar seu descontrole porque tenho manicure daqui uma hora e não quero perder tempo.
- Meritissimo juiz… - inicia a audiência o advogado.
- Juiza – interrompe o magistrado.
- Como?
- Juiza Epaminondas Teixeira.
- Juiza? – indigna-se o réu -  Não é porque a sua piroca é murcha que ela deixa de existir.
- Murcha, mas livre... e vai foder você - devolve a juíza.
- Vini, cala essa boca! – desespera-se o pai.
- Senhor advogado, consta que o seu cliente fez apologia de ideias nazi-fascistas em área pública, incitando ao racismo e à homofobia com injúrias verbais, como afirmam testemunhas, procede?
- Sim.
- No entando, ainda é réu primário.
- Sim, meritissimo… ou melhor, meritissima. O réu assume as acusações.
- Pela violação do artigo vinte da lei sete mil setecentos e dezesseis, condeno o réu a aprender a técnica de criação de terrários e vender as peças na feira de artesanato do Bixiga durante um ano, revertendo a renda para ONGs LGBT.
- Oi? – surpreende-se o réu.
- Sem multas, meritissima? 
- O pai dele paga o curso e tá tudo certo.
- Eu não vou fazer merda de terrário nenhum, sua bichona! Nem sei que porra é essa! Me dá uma punição de macho, ou cesta básica, sei lá!
- Pelo desacato, prorrogo a sentença por mais seis meses de exercício diário da nobre arte da produção de compotas, auxiliando os idosos do Lar Ricardo Coimbra.
- Compotas?
- Conservas, meu filho – esclarece o pai.
- Esse viado quer me fazer passar vergonha! – revolta-se – Quero condenação brutal!
- Não se satisfez? Então também condeno a sete meses de vendas diárias de alfajor vegano na Praça Roosevelt, com cem por cento dos ganhos doados ao Movimento Negro. 
- Mas Meritissima… como se faz alfajor vegano? – questiona o advogado.
- Alfarroba, capim santo… não me diz respeito. Estipulo que a pena comece a ser cumprida imediatamente.
- No seu cu é onde vou enfiar o alfajor, entendeu? No cu!

Guardas conduzem o réu para fora do recinto, enquanto o pai tenta consolá-lo com uma promessa:

- Vini, vou tentar conseguir ao menos uma semana de solitária pra você.
- A todos os presentes: gratiluz – encerra a audiência a juíza.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Dreads


- Foda-se a minha etnia! Eu sigo o Rei dos Reis e seu pedido é inadmissível.
- Então vem, Rei dos Reis, Leão Conquistador da Tribo de Judah, ruge pra mim.
- Que isso, mulher!? Eu sou um humilde servo. Só quem merece o título de Leão é Hailê Selassiê.
- Se tu é servo, me sirva ao menos uma vez, seu vagabundo!
- Sou servo porém livre! Além do mais, isso é uma puta heresia. Anti-higiênica, inclusive.
- Porra, mas que rastafari chato você é! Bob curtia uma sacanagem, não curtia? Olha a caralhada de filho que ele deixou.
- Deixou, mas duvido que penetrou o dread na vagina de alguém.
- Não era bem na vagina que eu queria, amor.
- Você sabe o trabalho que dá pra cultivar e manter isso aqui?
- Ai, que vaidoso.
- Não podemos fazer outra coisa?
- Vamos inaugurar um novo fetiche!
- Você tá bêbada.
- Dreadfucking?
- Desculpa, mas não é só um visual descolado.
- Ah, claro! Um loirinho de Moema que cultua um Deus Etíope. Toma vergonha nessa cara.
- Toma você! Quem vai ficar com o dread exalando cu por aí serei eu. É indigno!
- Devia te excitar.
- Não tenho essa perversão.
- Nem se te compensar depois pela dádiva?
- Parece um favor bem abjeto.
- Se você fosse um negão de verdade, talvez eu não estivesse quase implorando por esse “favor”.
- Tá insinuando que tenho o pau pequeno porque sou branco?
- Insinuando que você não gosta.
- Ok, então vira! Depois não reclama se te contaminar. 
- Sabia!
- O quê?
- Pode ser mórmon, muçulmano, satanista, o que for!
- Como assim?
- Bastou duvidar da masculinidade que você já caga sobre o Levítico e limpa a bunda com o Velho Testamento.
- Ainda podemos desistir.
- Vem cá, predador! Mas com jeitinho porque eu nunca fiz isso.




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Tinder


Andrício é levado pela moça ruiva até uma mesa cheia de desconhecidos. Percebendo que não ficaria a sós com ela, sente ameaçada a possibilidade de tirar a cueca naquela noite. Ainda assim, procura agir naturalmente:

- Legal, e estão comemorando alguma coisa?
- O teste daquela minha amiga ali - aponta a moça na outra ponta da mesa - que deu negativo. 
- Não tava pronta pra cegonha?
- Era teste de HIV.
- Ah.
- O ex é meio promíscuo, sabe?!- susurra – E o dele deu positivo. Maior bafo. Senta aí que eu te conto.
- Então… acho melhor eu partir. Trabalho amanhã – blefa Andrício, mantendo uma insistente semiereção.
- Como assim? Acabou de chegar.
- Achei que seria só nós dois, tipo um date.
- Ué, mas eu falei isso? – franze a testa, tentando se lembrar.
- Deu a entender pelo Tinder.
- Ah, o Tinder.
- Entendi errado?
- Relaxa, meus amigos são ótimos. 
- Mas vão ficar me julgando. Tipo: quem é o loser que se abalou até aqui atrás de alguém que nem conhece e mesmo depois de descobrir que a moça tava em outro rolé, se submeteu a ser coadjuvante? É como passar o aniversário na festa de outra pessoa, entende? 
- Hahahaha! Não tá falando sério, né?!
- Não seria melhor a gente sair daqui e...
- Puxa uma cadeira aí, vai - ordena, com doce impaciência, ignorando a anêmica tentativa de fuga de Andrício.

Após certa dificuldade em achar cadeira no bar lotado, enfim senta-se ao lado da bela ruiva que motivara-lhe a sair de casa naquela noite fria de terça, mesmo exaurido pelo trabalho, sob a autoimposta obrigação de fugir da rotina, também conhecida como “transar”.

- Você é o primeiro perfumista que eu conheço - ela puxa papo.
- Perfumista? 
- É, não faz perfume? Tô louca?
- Não, sou turismólogo.
- Vixe! E a promessa de criar uma fragrância pra mim? – questiona, simpática.
- Só poderia indicar destinos turísticos mesmo – responde, arrependendo-se do tom humilde, pois jamais envergonhara-se de sua profissão antes.
- Difícil com essa crise. Mas deixa seu cartão – ironiza, desconcertando-o ainda mais.
- Tinha dito que achava minha profissão original, lembra? 
- Desculpa, gato, muitas janelas abertas ao mesmo tempo, me confundo.
- Parecia querer me ver – sente a autoconfiança e a semiereção arrefecerem.
- Peraí, foi você que me mandou foto do pinto?
- Nunca fiz isso – aborrece-se.
- Pena, desse eu me lembro.
- Te mandam mesmo o…
- Ih… – contorce o rosto, deixando a resposta no ar.
- Bom, prefiro mostrar pessoalmente.
- Hahaha... calma, cara.

Se continuasse demonstrando tanta impaciência, poderia afugentá-la, pensa. Apesar da prudência indicar que o sentimento ideal é a expectativa controlada, não consegue evitar outra crise de orgulho ferido:

- Você parece não ter ideia de quem eu sou. 
- Péra, qual o seu nome?
- Andrício. 
- Haha... não fode. 
- Não fode você. 
- Nome incomum. Era pra eu me lembrar.
- Então por que chegou em mim no balcão?
- Você me olhou tão empolgado. Achei que tivéssemos combinado algo, sei lá.
- E combinamos! Insistiu pra eu vir aqui, inclusive.
- Gosto daqui.
- Marcou mais algum date pra hoje? – pergunta, atravessando de vez a fronteira entre a impaciência e a animosidade, sem jamais ter sido agradável de verdade.
- Nem sei, Aparício. Falo com tanta gente.
- Andrício.
- Meu, você é meio exigente. Primeiro pede exclusividade, agora quer que eu lembre de coisas que disse chapada. Too much pro meu pobre cérebro.
- Desculpa, Silvia - ele põe as mãos sobre o peito, admitindo culpa - Vamos começar de novo essa conversa?

Ela abafa uma risada.

- Que foi?
- Quem é Silvia?
- Ué… não disse que era o seu…?
- Lá vem você dizer que eu falei isso e aquilo de novo.
- Você não é a Silvia? – saca o celular do bolso e o consulta.
- Sua Silvia é ruiva também? 
- É… - responde, aparentando terrível frustração – Merda, não vi a mensagem. Foi embora há vinte minutos.
- Essa mulher tá te enganando. Tenho certeza que sou a única ruiva aqui desde que cheguei.
- Vocês deviam colocar fotos nítidas nessa porra de aplicativo de paquera!
- “Aplicativo de paquera”? Falando assim fica difícil se solidarizar com você, amigo – debocha.
- É, sou devagar com novas tecnologias - faz o tipo coitado.
- Relaxa porque o negócio ainda pode ficar bom pro seu lado – dá-lhe um tapinha no joelho.
- Como?
- Em primeiro lugar – estende a mão – prazer, Ingrid.
- Prazer. 
- Tem alguém aqui no bar que adorou você.
- Mas eu nem socializei, fiquei só aqui sentado.
- Pra você ver o seu poder de sedução. Posso chamar...?
- Não sei, tinha outros planos.

Ingrid se levanta e grita para alguém no balcão.

- Clinton, chega aí! 

O sorridente barbudo de turbante aproxima-se cheio de ginga, mas detém-se ao perceber a careta de Andrício.

- Bom, chegamos ao famoso “limite” – bate na mesa Andrício.
- Meu, não precisa pegar o Clinton. Ele te curtiu, podem ser amigos.
- Ele é mais sensato que você, tanto que ficou lá na dele.
- Clinton é sensível, meu bem. Captou sua aura negativa.
- Por acaso você chegou em mim por causa dele? 
- Sim e não. Tem dois lados de ver a coisa.
- Quero saber do lado bom. 
- Pode ser um copo meio cheio... ou meio vazio - mantém-se enigmática.
- Bom, eu prefiro meu cu totalmente vazio, ok? 
- Se acha assim, devia procurar outra coisa, tipo aquela mina ali que não tira os olhos de você.
- Quem...? – a visão da pessoa parece causar vertigem em Andrício.
- Se você visse sua cara...
- Tem banheiro aqui? 

Tenta escapulir sem sucesso, pois a mulher misteriosa já estava ao seu lado. 

- Tô surpresa de te ver aqui.
- Oooi – simula uma simpatia tosca – Como você tá?
- Bem. E a Ju, cadê?
- Viajou.
- Bacana – responde seca, espichando os olhos para Ingrid.
- Esta é a Ingrid, uma amiga.
- Oi! A gente se conheceu pelo Tinder – intromete-se Ingrid – Quer sentar?
- Bom...  – fulmina Andrício com o olhar - Não vou me meter nos seus assuntos. Manda um beijo pra Ju.

Impotente, Andrício observa a moça ir embora, concluindo estar irreversivelmente encrencado. 

- Cê quer me foder, né? 
- Eu não. Você que quer me foder. 
- Você mentiu!
- Por que não me disse que tinha rolo com alguém?
- Não tenho, quer dizer, não sei mais, porque aquela é a melhor amiga dela.
- E não ia me contar?
- Deveria? Vim aqui encontrar outra pessoa, esqueceu?
- Mas queria me comer.
- Não, queria a Silvia.
- E o que ela tem de tão diferente? Vocês nem se conhecem.
- Olha, só me arrisquei porque ela tem algo sim.
- Tipo?
- Bom... melhor eu ir. Já me fodi o suficiente.
- Ah não, agora fala.
- Ela não é totalmente mulher.
- É trans?
- É, mais ou menos isso.
- Que máximo! 
- Mulher eu já tenho.
- Peraí! Você me confundiu com a... - arregala os olhos - Acha que eu tenho cara de trans? 
- Não sei, é que hoje em dia...
- Meu Deus!
- Quanto mais feminina melhor, né?!
- Mano, olha o Clinton ali a fim. Tá perdendo tempo por quê?
- Tá doida? Não sou gay, só curto... ou melhor, tenho curiosidade com...
- Pau?
- Trans – olha ao redor, constrangido com a admissão – E seu amigo é muito peludo.
- Bom, então ninguém aqui pode te ajudar.
- Tudo bem. Agora só consigo pensar na merda que vai dar com a Ju.
- Só se rolasse um threesome, que que cê acha? Eu, você e o Clinton.
- Tá de onda, né?
- Uma mão lava a outra. Eu curto com dois caras, você tá atrás de aventura flex e o Clinton é da orgia  – bate palmas, excitada - E aí, partiu?
- Esse é o copo meio cheio de que você tava falando?
- Vai ou não? Sem enrolar.
- Tá.
- Clinton – grita de novo – Pega a catuaba e vem!



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pole dancer


O interfone toca e Enzo atende:

- Pois não?!
- Marido de aluguel!
- Quem?
- É o Clarício.
- Acho que é engano.
- Não pediu serviço de hidráulico e encanador?
- Pedi.
- Então é comigo. Pode abrir.

No banheiro, Clarício abre a caixa de ferramentas, sob olhares intrigados do dono da casa.

- Quem te indicou foi a Cidinha do 201, mas ela não me disse que você era…
- Marido de aluguel? Sou profissional completo, irmão.
- E ela é muito bem humorada.
- O que vai ser?
- Instalar o chuveiro e desentupir a pia.
- Mas isso é só um bico.
- Oi?
- Marido de aluguel é só bico.
- Clarício, vou te tratar como encanador, ok? Esse negócio de marido de aluguel, sei lá, me humilha um pouco.
- Pode me tratar como dançarino.
- Não entendi.
- Dançarino Clarício. Aliás, dançarino não. Pole dancer Clarício, melhor.
- Você é dançarino?
- Pole dancer.
- Isso é sério?
- Falei que meu ramo era outro. 
- Você vive de pole dance?
- Tento, né?! Viajo bastante com esse projeto.
- Viaja?
- Tô aqui pra etapa brasileira do Circuito Mundial de Pole Dance Masculino. E sou o melhor, modéstia à parte.
- Parabéns – disfarça o riso - Nem sei o que dizer.
- Veda-rosca, por favor.
- Vedar o quê?
- Pega o veda-rosca aí na caixa, irmão.
- Ah! É isso?
- Acontece que a próxima etapa é em Las Vegas e a grana pra passagem tá curta.
- Mas se você é campeão, não devia ter grana pra participar das etapas?
- Tá duvidando?
- Não, foi só uma pergunta.
- Ainda não sou campeão, mas sou o primeiro do ranking brasileiro.
- Existe ranking? 

Clarício não responde, parece contrariado.

- Tá, eu acredito.
- Pode perguntar pra Cidinha.
- Cidinha? A Cidinha do 201?
- É, ela já viu minha apresentação.
- Viu? Onde? Você tambem faz… michê?
- Tá me tirando?
- Olha, Clarício pole dancer, eu não quis duvidar de você. Isso é novidade pra mim. 
- O quê é novidade?
- Esse negócio de pole dance masculino, a Cidinha e tudo mais.
- Ah, porque só mulher pode dançar pendurada no cano.
- Não, achei curioso o lance da Cidinha, apenas. Parece pegadinha dela.
- Agora vai espalhar pro prédio que eu dancei pra Cidinha, vai?
- Eu?
- Aí perco meu bico com a vizinhança e no money for Vegas.
- Escuta, só encomendei um serviço. Se é pole dancer ou se dança pra minha vizinha, tanto faz.
- Relaxa, pra mim também é novidade atender gente feito você.
- Por quê?
- Porque, desculpa a sinceridade, homem sozinho se vira, né?!
- Não entendi. 
- Geralmente resolve a bucha sem precisar de “marido”.
- Já falei que não sabia que você era um…
- Fica entre nós.
- Por ser homem, tenho que manjar de consertos?
- Só disse que era incomum, meu parça.
- Não sou seu parça, sou o otário que te descola dinheiro fácil.
- Ih, ficou ofendido.
- Porque é preconceito.
- Doeu em você, foi? Desculpa, mas meu preconceito não é pior que o seu. 
- Não fui preconceituoso, você que é paranoico. 

Clarício abandona o serviço e encara Enzo, um tanto ofendido e um tanto ameaçador.

- Vai me agredir, seu Clarício, é isso?
- Não, vou argumentar: o que tá rolando aqui é conflito de classe. 
- Oi?
- É! O pobre coitado do pole dancer não pode ir pra Vegas, não pode pegar a vizinha rica. 
- Você “pegou” a Cidinha?
- “Só pode ser michê”, aposto que tá pensando nisso até agora – ressente-se.
- A questão é que eu e a Cidinha temos um…
- Você não se conforma por eu levar uma vida mais da hora que a sua.

A campainha toca e Enzo não demonstra surpresa ao abrir e ver Cidinha entrar sem cerimônia.

- E a pia, consertou? – pergunta enquanto atravessa a sala de pijama – Pole dancer Clarício taí?
- Cidinha, você mandou um michê vir aqui? Cidinha, vem cá! – persegue a moça até o banheiro.
- Oi, Clarício! E Vegas, vai rolar, baby?
- Fala, minha gata! – beija a bochecha que Cidinha oferece - Olha a caca que seu vizinho arrumou aqui.

Enzo e Cidinha olham enojados para um enorme tufo capilar nas mãos do dançarino.

- Aparei a barba na pia.
- Que barba, Enzinho? Você nunca teve – entrega a vizinha.
- Isso aqui tem outro nome: é pentelho! – esclarece o marido de aluguel.
- Enzinho!
- Pois é, Cidinha, seu vizinho me trata como inferior porque cultuo o corpo, mas depila o saco na pia. 
- Eu não fiz isso.
- Enzinho, você tá discriminando o Clá? Não acredito.
- Já me acostumei. Gente como o seu Enzo acha que artista é vagabundo, gentinha.
- Artista? – ri Enzo com ironia.
- É artista sim – defende Cidinha - Mostra aí Clá. Trouxe o pole portátil?
- Que isso, Cidinha?! – encabula-se Clarício - A hora de trabalho é sagrada.
- Sagrada?! Já fez lá em casa, esqueceu?
- Ok, só um passinho – tira da caixa de ferramentas um cano de metal portátil e dirige-se até a sala.
- Ei, termina o serviço antes – ordena Enzo, antes de ter a boca tapada por Cidinha.

O pole dancer aciona o cano portátil, que cresce de tamanho.

- Você leva essa porra de cano portátil pra todo lugar? 
- Sim, senhor. Inclusive outro dia usei pra salvar um pugzinho que caiu no bueiro.
- Olhaí, o Clá é um herói – derrete-se Cidinha. 

Clarício passa cola na extremidade do cano e o fixa ao chão. Em seguida dá play em uma música do Jamiroquai em seu celular.

- Ele passou cola? Vai foder meu piso.
- Relaxa, depois a gente limpa – tranquliza Cidinha, causando desconfiança em Enzo.
- Sei. Queria um bueiro igual ao do pugzinho pra não ter que ouvir essa músi… o que é isso? – espanta-se ao ver Clarício livrar-se de uma vez só dos trajes, ficar de sunga e pendurar-se no cano.
- É velcro - explica Cidinha - Legal, né?! 
- E tá besuntado! Como esse cara faz isso? Já acorda assim?
- Ele é pole dancer. Deve ter um verniz natural.
- Essa música alta vai perturbar os vizinhos.
- Ai, Enzinho, vai tomar seu floral, vai – recomenda Cidinha, sem deixar de aplaudir e dançar ao ritmo da música.

Um rosto curioso surge por trás da porta entreaberta. É o zelador do prédio, acompanhado de outro homem, de macacão, carregando um botijão de gás.

- Seu Enzo, desculpa entrar assim. Acho que o senhor não ouviu o interfone, por causa da música, então o rapaz tocou no meu – olha para o sujeito pendurado no cano – Este aí não é o…?
- Vai falar que também conhece a peça? – irrita-se Enzo.

O homem do gás espicha a cabeça da cozinha, onde instala o botijão, e se mete na conversa.

- Esse aí é o cara da TV? – grita, para ser escutado.
- Ele foi no Otávio Mesquita - revela o zelador - O cabra tá de parabéns.
- Isso não tá acontecendo.
- Enzo, o Clarício é energia pura, é vida! Você tinha que se inspirar no exemplo dele – empolga-se Cidinha.
- Que exemplo?
- Ele se vira pra cuidar do filho deficiente – intromete-se novamente o homem do gás.

Leves batidas na porta. Outra pessoa se anuncia, para desespero do anfitrião involuntário.

- Seu Benito! Me desculpa pela música alta – vira-se furioso para Cidinha e cia – Olhaí, vocês conseguiram trazer o síndico até minha casa.
- Fica tranquilo, seu Enzo. Sou só o humilde enviado de umas senhoras que estão lá embaixo, na portaria – anuncia o senhor de bigode.
- Como assim?
- Elas souberam que tem celebridade no prédio e pediram pro senhor Clarício se apresentar lá no playground, se não for incômodo, claro.

Após um ultimo rodopio de ponta cabeça, Clarício cai de pé como um legítimo ginasta olímpico. Quase todos aplaudem.

- Mas tem que rolar um cachezinho, seu Benito! – intervém Cidinha - O Clá tá no horário de trabalho dele.
- Inclusive meu banheiro tá esperando.
- Acho que elas não vão negar uma contribuição.

Clarício descola o pole com uma flanela embebida em um produto químico estranho, pega a caixa de ferramentas e desce sem titubear. A pequena plateia o acompanha em júbilo. 

- E o meu chuveiro?
- Banho frio faz bem pra seborreia – debocha Cidinha, antes de fechar a porta do elevador.  


Enzo encara o tufo de pentelhos no chão do banheiro, refletindo sobre a própria inaptidão.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Você me decepcionou favoravelmente


- Me excluiu?
- Sim, geral tá assumindo um lado. E o meu, definitivamente, não é o seu.
- Como assim? Eu não curto Bolsonaro e essas merdas.
- Mas passou o dia postando fotos de indoor sky diving
- Você manja?
- Sei o nome porque pesquisei.
- E?
- Não tô interessado no seu hobby escroto. A pauta hoje é outra.
- Hahahaha... meu, você não imagina como é animal!
- Pelo menos pula de paraquedas de verdade, caralho. Não fica aí nessa punhetinha aérea, pedindo aplauso. Isso equivale a bicicleta de rodinhas.
- Vou pular em breve. Tava me preparando.
- Também excluí paraquedistas.
- E os fãs do Bolsonaro?
- Não tinha nenhum.
- E por isso veio implicar comigo.
- O Brasil caindo e você pulando em tubinho de ar, mostrando linguinha, fazendo hang loose. Você me deprime.
- É pessoal, né babaca?!
- Não, também excluí três celíacos e dois veganos que pagam de virtuosos da alimentação.
- Você é um infeliz.
- Te dei uma chance. Achei que hoje viria seu post engajado. Não veio, tchau.
- Quer saber?! Exclui. Pode excluir! Mas vou te dar um motivo de verdade.
- Nem precisa.
- Sabe a Isabela, sua antiga namorada? Comia sempre.
- Pode comer, uai.
- Comia enquanto ela estava com você.
- Mentira.
- Sempre quando você ia à manifestação.
- Meu feeling tava certo.
- Não fode! Você nem desconfiava.
- Você é um conspirador que caga pra qualquer tipo de aliança.
- Hahaha… gozei no tubinho de ar dela.
- Tubinho de ar?
- No cu, Vítor.
- Ah, era pra ser uma piada?
- Não curtiu? Que pena.
- Olhaí… tu é um misógino que trai a confiança de uma mulher.
- Não sou eu que tenho problema.
- Rapaz, você pode até ter comido minha namorada, mas sabe o que eu fiz?
- Não me interessa.
Base jumping.
- Duvido.
- Não sou homem de ficar pulando em tubinho de vento não, porra!
- Cadê foto?
- Só carentão precisa postar fotinho.
- Queria te ver com aquela roupa de esquilinho voador ridícula.
- Tem vários programas sobre base jumping no canal Off. Não me lembro de ter visto algum sobre tubinho de vento.
- Você blefa.
- E você não é tão idiota quanto eu pensava.
- Vindo de um corno ressentido, tomarei como elogio.
- É sério, você me decepcionou favoravelmente.
- O que isso significa?
- Que vai continuar excluído.